Correio Popular | Produto à base de óleo de tomilho é desenvolvido para combater o Aedes aegypti

Pesquisadora em laboratório segurando uma placa de Petri transparente com pequenas amostras, vista de baixo para cima, destacando as amostras desfocadas no primeiro plano. Fim da descrição.
Inédita e em fase de obtenção de registro junto à Anvisa, a tecnologia elimina 100% das larvas do mosquito da dengue em até 48 horas

Texto: Edimarcio A. Monteiro – Correio Popular | Foto: Alessandro Torres

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um novo produto biodegradável para eliminar larvas do mosquito Aedes aegypti, causador de várias doenças, como a dengue, feito à base de óleo de tomilho. A partícula, equivalente ao tamanho de um grão de arroz e que deve ser colocada no prato de vaso de flores e em outros recipientes onde há acúmulo de água, já foi licenciada para uma empresa. A expectativa é que seja obtida a licença para produção em larga escala até o final deste ano. A novidade vem à tona no momento em que as 20 cidades da Região Metropolitana de Campinas (RMC) registraram 113.141 casos de dengue este ano, com 150 óbitos. O acúmulo de água em recipientes, como garrafas, poças e até piscinas abandonadas, é o principal fator que propicia a proliferação do mosquito. Esses objetos e locais se tornam criadouros perfeitos para as larvas do inseto.

Algumas das vantagens do produto é ser totalmente natural, ter formulação segura para seres humanos e animais, baixo custo e potencial para integrar políticas públicas de saúde.

“O desenvolvimento partiu da premissa de criar um produto seguro, escalonável e adequado para uso em ambientes domésticos, especialmente nos pequenos focos mais comuns, como vasos, garrafas e recipientes plásticos”, explicou a inventora responsável pela partícula, a professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp e engenharia química Ana Silvia Prata.

A tecnologia inédita é capaz de eliminar 100% das larvas do Aedes aegypti em até 48 horas. O mosquito é transmissor, além da dengue, da chikungunya, zika e da febre amarela urbana. O novo produto é formado por uma matriz de amido que encapsula o óleo essencial de tomilho, erva aromática usada tanto na culinária quanto na medicina tradicional. Além de temperar diversos pratos, ela possui propriedades medicinais, auxiliando no combate a tosse, problemas de pele e ansiedade, com o óleo sendo reconhecido por sua ação larvicida. De acordo com a pesquisadora, diversos compostos naturais foram avaliados, com a escolha pelo tomilho ocorrendo por apresentar um alto nível de eficiência, uma boa concentração letal, facilidade de uso e não ter risco de contaminação.

Dose

Uma partícula de menos de 1 grama trata até 100 mililitros (ml) de água, quantidade equivalente a mais da metade de um copo americano, que tem capacidade de 190 ml. O produto deve ser colocado nos recipientes e outros locais que acumulam água, com a ação larvicida ocorrendo somente quando há contato com o líquido. A partícula se posiciona no fundo do recipiente, onde as larvas do Aedes aegypti costumam se concentrar, aumentando a eficácia. O óleo é liberado parcialmente, se dispersando lentamente na água. Os testes apontaram que “é possível utilizar essas partículas por até cinco ciclos de chuva e seca”, destacou Ana Prata, desde que não se dissolvam por completo.

O novo produto apresentou um grande prazo de validade, continuando eficiente até cinco anos após a produção. A pesquisa foi desenvolvida em duas etapas. A fase laboratorial foi feita em conjunto com a Universidade Federal de Sergipe (UFS), que faz a produção em laboratório de larvas do Aedes aegypti. Os testes de campo foram realizados em Adamantina (SP), quando a cidade enfrentava uma epidemia de dengue. Ela foi dividida em duas partes, em uma sendo usada a partícula desenvolvida pela Unicamp e em outra um agente biológico adquirido pelo poder público local. “As partículas superaram o desempenho do agente biológico”, disse a pesquisadora.

De acordo com ela, o novo grão à base de óleo de tomilho também teve um efeito educativo, com a presença nos recipientes incentivando a população a eliminar os criadouro de forma proativa. “A quantidade de óleo é muito pequena e, nas condições de uso, não oferece toxicidade para crianças ou animais”, esclareceu a professora da Unicamp.

O desenvolvimento do produto na universidade teve a participação também dos pesquisadores Marcio Schmiele, doutor em Tecnologia de Alimentos pela universidade; Julia Dia Maia, doutora em Engenharia de Alimentos também pela instituição; e Johan Bernard Ubbink, da Universidade Politécnica Estadual da Califórnia (Cal Poly) dos Estados Unidos.

A patente da nova partícula foi obtida pela Agência de Inovação (Inova) da Unicamp. O uso da tecnologia foi licenciado para uma empresa, que deu entrada no registro junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo o diretor da companhia, César Xavier, a solicitação é para enquadrar o óleo essencial como desinfetante para obter o registro da partícula como inseticida. “A partir daí, teremos as condições para avançar na produção e comercialização da partícula”, projetou o executivo.

Situação da Dengue

A Região Metropolitana de Campinas registrou até ontem 150 mortes provocadas pela dengue, média de uma a cada praticamente um dia e meio, de acordo com os dados do painel da doença da Secretaria Estadual de Saúde. A proporção é superior à de um óbito a cada 1,8 dia ocorrida em 2024. No ano passado, a RMC registrou 203.517 casos de dengue, com 203 óbitos. Em 2025, apenas duas cidades da região não registraram morte provocada pela doença, Itatiba e Morungaba.

Americana lidera em número de óbitos, com 29 vítimas fatais, seguida de Santa Bárbara d’Oeste (25), Indaiatuba (23), Campinas (21) e Sumaré (16). “Embora estejamos no inverno, quando os casos tendem a diminuir, a primavera se aproxima trazendo novamente calor e chuvas, condições ideais para o mosquito se proliferar. Por isso, estamos intensificando as ações educativas em locais com grande circulação de pessoas, reforçando que a melhor forma de prevenção é eliminar os criadouros”, destacou a coordenadora do Programa Municipal de Controle da Dengue (PMCD) de Americana, Eunice de Lima.

Os dados da Secretaria Saúde do Estado apontaram ainda que 17 cidades da região estão com a incidência de dengue, quantidade de casos por 100 mil habitantes, superior à média estadual, que é 1.884,2 a cada 100 mil. A maior proporção foi registrada em Jaguariúna, onde a média é de 11.292,6. A cidade, de 59.347 habitantes, registrou 6.823 casos de dengue desde 1º de janeiro, com quatro mortes. O número de vítimas fatais já superou as três ocorridas no ano passado. Jaguariúna é a 14ª cidade do Estado com a maior incidência de dengue. A liderança é de Conchas, com 15.756,37.

Outras situações

Na RMC, as cidades com incidência abaixo da média estadual são Itatiba (327,7), Nova Odessa (1.267,7) e Valinhos (1.353,3). Em Campinas, a taxa é de 3.713 casos a cada 100 mil pessoas. A cidade acumula neste ano 42,4 mil pacientes com a doença e 21 mortes confirmadas, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. “Os trabalhos para eliminar criadouros do Aedes aegypti e orientar a população ocorrem continuamente, uma vez que o risco de transmissão ocorre em todas as regiões de Campinas”, informou a diretora do Departamento de Vigilância em Saúde, Wanice Port.

A 30ª edição do Alerta Arboviroses em 2025, divulgado na quinta-feira (31), indicou 28 bairros com reforço em ações preventivas, de combate e nas orientações à população. Eles estão localizados nas regiões Leste (Vila Costa e Silva, Vila Miguel Vicente Cury e Jardim Santa Genebra), Noroeste (Cidade Satélite Íris 1, Parque Itajaí 1, Parque Itajaí 4, Jardim Liliza e Jardim Campos Elíseos), Norte (Jardim Campineiro, Jardim São Marcos, Recanto Fortuna e Loteamento Vila Esperança), Sudoeste (Parque Universitário de Viracopos, Jardim Vista Alegre, Eldorado dos Carajás, Jardim Santo Antônio, Parque Vista Alegre e Jardim Santos Dumont 2), Sul (Jardim São José, Jardim Santa Cruz, Jardim das Bandeiras e Jardim do Lago Continuação), Suleste (Vila Georgina, Vila Marieta, Swift, Jardim Samambaia, Jardim Maísa e Jardim Esmeraldina).

A definição é realizada pela equipe técnica da saúde, que monitora semanalmente uma série de indicadores para identificar as áreas de maior risco. A análise considera a incidência de casos, a circulação simultânea de dengue e outras arboviroses, a densidade populacional, a intensificação dos trabalhos em regiões com imóveis de difícil acesso, a comunicação de risco, entre outros itens.

🌐 Matéria publicada originalmente no site do Correio Popular.

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