4 de setembro de 2025 Tecnologia para processamento de madeira leva a Hardera a mercados externos com rigorosas leis ambientais
Sediada nos Estados Unidos, empresa-filha da Unicamp desenvolve solução química que amplia a resistência e a durabilidade da madeira de reflorestamento e aposta em um modelo de licenciamento da tecnologia para escalar o negócio.
Texto: Christian Marra – Inova Unicamp | Fotos: Divulgação – Hardera
Fundada em 2018, a startup Hardera Inc. é uma empresa-filha da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) sediada nos Estados Unidos que atua com foco na sustentabilidade ambiental. Sua principal tecnologia é uma solução que transforma madeira de reflorestamento, especialmente pinus, em um material com propriedades físicas comparáveis às madeiras nobres, como o mogno — hoje protegidas por legislação ambiental em inúmeros países e não mais exploradas comercialmente.
Essa solução química não é agressiva ao meio ambiente e é capaz de densificar as células da madeira, ampliando significativamente sua durabilidade e resistência. Com ela, a Hardera aprimora as propriedades físicas de um tipo de madeira com oferta abundante e plantio controlado, dando a elas uma performance similar à de madeiras de lei que não podem ser extraídas da natureza.
“Nossa tecnologia não é tóxica e transforma o pinus em uma madeira de alta performance, que permanece funcional e protegida contra deterioração por até 35 anos, com resistência mecânica próxima à de madeiras nobres”, afirma o engenheiro de software Francisco Gomes. Ele é um dos sócios-fundadores da empresa, ao lado de Ricardo Cotrin Teixeira, aluno egresso dos programas de mestrado e doutorado da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp. Hoje, Gomes está à frente das operações da Hardera.
Uma empresa-filha da Unicamp com vocação para o mercado externo
Sediada atualmente em Redwood City, na Califórnia (Estados Unidos), desde o seu início, a startup esteve sempre voltada para o exterior, pois sua tecnologia tem maior demanda nos países onde a madeira é mais amplamente utilizada na construção civil. “No Brasil, a procura por madeira tratada é baixa, pois as exigências regulatórias ainda são menos rigorosas em comparação com alguns mercados internacionais. Nossa estratégia sempre foi focar onde há uma exigência real por materiais sustentáveis ambientalmente”, explica Gomes.
Ele também afirma que muitos países têm leis que exigem uma construção civil mais sustentável ao meio ambiente, e a Hardera se ajusta a esse perfil: “Estamos mais alinhados aos mercados onde há exigência por materiais certificados ambientalmente. Nos Estados Unidos e na Europa, principalmente nos países escandinavos, existem metas para que até 70% das construções utilizem madeira. A nossa tecnologia é adequada a esse movimento global de construção verde”, afirma o engenheiro.
Esse foco em sustentabilidade ambiental favoreceu a Hardera a ser selecionada, em 2018, para participar de um programa de aceleração promovido pela Singularity University, instituição localizada no Vale do Silício, nos Estados Unidos. Por isso, a empresa-filha da Unicamp praticamente nasceu no exterior: “Como parte do programa, a empresa foi aberta no mercado americano e recebeu apoio técnico e estratégico da instituição. A Singularity não aportou capital, mas nos conectou com um ecossistema riquíssimo. Isso nos abriu portas para validações com empresas americanas e reforçou nossa estratégia de licenciamento internacional”, relata Gomes.
Modelo de negócio da Hardera é voltado ao licenciamento de sua tecnologia

Sediada na Califórnia (Estados Unidos), a Hardera atua em mercados internacionais nos quais a legislação é mais exigente para o uso de materiais ambientalmente sustentáveis na construção civil. Foto: Hardera – Divulgação.
A tecnologia da Hardera não deve ser usada para que a própria empresa realize o processamento dos produtos. O objetivo, segundo Gomes, é apostar no modelo de licenciamento de sua patente como caminho para escalabilidade: “Em vez de adquirir e processar a madeira, estamos procurando parceiros industriais que aplicarão a tecnologia diretamente em suas operações. Isso reduz nossa necessidade de investimento em infraestrutura e abre portas para nossa tecnologia alcançar mais rapidamente diversos mercados pelo mundo”, acrescenta o sócio-fundador.
O passo atual da Hardera, também segundo ele, é avançar o processo de patenteamento da tecnologia nos Estados Unidos, que atravessa uma etapa crucial: a certificação em testes de resistência e durabilidade em madeiras norte-americanas, que têm características diferentes das brasileiras. Ele acredita que esses processos devem ser concluídos no segundo semestre de 2025:
“Se a madeira tratada com nossa solução for validada com os resultados esperados, poderemos licenciar a patente em vários países. E teremos um diferencial competitivo frente aos concorrentes, pois nossa formulação tem uma solução química menos agressiva, o que é um ponto decisivo para países com legislação ambiental mais rígida. Esperamos, assim, poder levar uma tecnologia brasileira aos principais mercados do mundo”, finaliza Gomes.
Ecossistema empreendedor da Unicamp
Um dos ecossistemas empreendedores que a Hardera faz parte é o Unicamp Ventures, fomentado pela Agência de Inovação Inova Unicamp, que produz conteúdo (como esta matéria) e eventos reunindo as empresas-filhas da Universidade. A Inova Unicamp também é a porta de entrada para empresas que desejem se conectar com grupos de pesquisa para projetos em cooperação com a Universidade.
Podem compor o ecossistema os empreendimentos fundados por pessoas que têm ou tiveram vínculo com a Universidade, tais como alunos, ex-alunos, docentes e funcionários ou ex-funcionários, além de startups que foram incubadas na Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp (Incamp) ou criadas a partir de uma tecnologia desenvolvida na Universidade, as chamadas empresas spin-off.
A Inova Unicamp está com o cadastro aberto para mapear novas empresas de seu ecossistema. O cadastro é gratuito e pode ser feito aqui.