11 de dezembro de 2025 Da ideia à nota fiscal: painel na Energy Week aponta lições para startups evitarem o risco da tecnologia sem cliente
Debate sobre empreendedorismo no setor de Óleo e Gás mostrou os obstáculos que podem prejudicar a trajetória entre o laboratório e o mercado, mas ressaltou o potencial promissor de negócios do setor no Brasil, capaz de exportar soluções de descarbonização para todo o mundo.
Texto: Christian Marra – Acadêmica Agência de Comunicação | Foto: Angela Trabbold – Acadêmica Agência de Comunicação
O debate promovido no último painel da Energy Week, evento que ocorreu na semana passada, entre 3 e 5 de dezembro, promovido pelo Centro de Estudos de Energia e Petróleo (CEPETRO) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), apresentou uma série de lições para auxiliar startups do setor de Óleo e Gás (O&G) a evitar os principais riscos no caminho entre o laboratório e o mercado, visando transformar suas ideias em produtos. Entre os obstáculos, as barreiras financeiras, a gestão de caixa, a formação de empreendedores, a aproximação com o mundo dos negócios e as relações entre pequenas startups e gigantes multinacionais foram alguns dos desafios mais citados pelos palestrantes.
O painel foi realizado na última sexta-feira (5), no Auditório da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade e contou com a participação de especialistas do setor de ensino e pesquisa e de representantes do campo empresarial. Mesmo com numerosos desafios, houve um consenso entre os painelistas sobre a posição privilegiada do Brasil no cenário mundial de energia, com uma clara vocação para fontes renováveis e um know-how sem igual nesse segmento, que capacita seus profissionais a atenderem mercados externos com soluções eficazes e comprovadas.
O painel foi moderado pelo professor Rangel Arthur, diretor-executivo associado da Agência de Inovação Inova Unicamp, que convidou ao palco os outros debatedores: João Carlos Sávio Cordeiro, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), Hércules Padilha, gestor de inovação aberta, startups, pesquisa, desenvolvimento e inovação da Petrobras, e Orlando Ribeiro, CEO da Neo Okeanos Consultoria.
Arthur introduziu o tema expondo um panorama das ações da Inova Unicamp, destacando a gestão da propriedade intelectual desenvolvida na Unicamp, o suporte ao empreendedorismo e o papel da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica (Incamp) no desenvolvimento de deep techs, com forte presença nos setores de óleo, gás e energia. Ele ressaltou o histórico de patentes e tecnologias licenciadas da Universidade, incluindo tecnologias já aplicadas em combustíveis sustentáveis e monitoramento de riscos, além de acordos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) que envolvem diversos centros de pesquisa da Unicamp e empresas parceiras.
Arthur também enfatizou a relevância do Entrepreneurship for Future and Sustainable Energy (Enfuse), um programa da Unicamp e da Petrobras voltado à formação de empreendedores e à criação de startups de alta tecnologia para impulsionar o setor de energia, óleo e gás no país: “É um programa que visa o empreendedorismo deep tech. Entre seus objetivos está fazer primeiramente um benchmarking com hubs e ecossistemas internacionais e nacionais para analisar o que deu certo e o que não deu certo. Depois, será proposta uma modelagem do ecossistema brasileiro, baseado em ciência de dados, e serão criados sistemas de monitoramento e avaliação de resultados de projetos de PD&I”, detalhou o diretor-executivo da Inova, antes de abrir os debates do painel.
Ampliar a visão empreendedora nas startups
Padilha, representante da Petrobras, por sua vez, apontou uma lacuna no desenvolvimento do setor de inovação: a frequente desconexão entre a excelência técnica e a capacidade de gestão estratégica. Para o gestor, o domínio da ciência isoladamente não é suficiente para garantir o sucesso de novos projetos. É fundamental que os profissionais busquem qualificação contínua para obter visão de negócios.
Em sua apresentação, ele enfatizou: “Precisamos ter formação em empreendedorismo. Para ser um bom gestor, eu preciso estar constantemente me qualificando. Mas a nossa tendência é a de falar só de tecnologia. Então, nós precisamos aproximar esses dois mundos: a tecnologia e o negócio”, destacou Padilha.
Nesse sentido, ele resumiu essa ideia em uma frase: “Todos nós deveríamos abraçar o desafio de emitir notas fiscais. Todos nós: empresas, universidades e centros de pesquisa. Pensar sempre em como fazer com que esse pipeline gere notas fiscais. Esse desafio compete a todos nós que participamos desse processo”, observou o gestor da Petrobras.
Desafios estruturais e financeiros das startups
Em outro âmbito, os painelistas concordaram que, para tornar realidade esse desafio, o ecossistema de inovação no setor de energia no país ainda impõe às startups barreiras estruturais que vão além do desenvolvimento tecnológico. Para sobreviver como empresas, elas precisam enfrentar um ciclo de desenvolvimento duradouro e caro, lidando com a escassez de acesso a infraestrutura de laboratórios e a dificuldade de investimento em maquinário pesado, essenciais para validar suas tecnologias.
Cordeiro, do IPT, listou alguns desses obstáculos encontrados na caminhada das startups: “Dificuldade de acesso ao capital, maturidade tecnológica, barreiras regulatórias, competição com players tradicionais, ciclo de desenvolvimento longo e custoso –especialmente no setor de energia –, acesso à infraestrutura de laboratórios, dificuldade de investimento em máquinas, apenas para citar alguns deles”, pontuou o pesquisador.
Outro desafio mencionado na transição da fase de protótipo para a escala industrial é a falta de expertise para gerenciar cadeias de suprimentos e transformar uma estrutura enxuta de startup em uma indústria robusta. Para isso, a disciplina financeira torna-se uma questão vital. “Isso exige monitoramento rigoroso das despesas mensais. E nesse sentido, duas palavras são matadoras: o famoso cash burn e o runway, ou seja, quanto você gasta por mês e quanto tempo vai durar o seu caixa. E de onde vai vir o próximo dinheiro. São problemas absolutamente críticos”, observou o consultor Ribeiro.
Relações com as grandes corporações em um cenário de negócios promissor
Startups no setor de energia frequentemente dispõem de apoio de grandes corporações. Mas essa relação exige cuidados devido à assimetria entre as estruturas. Por isso, no debate também foi destacado que a burocracia rígida das grandes empresas pode, involuntariamente, impactar os processos ágeis das startups.
Ribeiro ilustrou a periculosidade dessa dinâmica com uma metáfora: “Imaginem o elefante dançando com um ratinho. Olhou para o lado, pisou, acabou o ratinho. Então a gente tem que ter muito cuidado”. Para evitar esse cenário, ele alertou que é preciso “ensinar” departamentos administrativos das grandes empresas para evitar falhas que comprometam o futuro desses empreendimentos: “O responsável não pode sair de férias e esquecer de autorizar o pagamento da startup. Em 30 dias essa empresa quebra. Tão simples quanto isso. É preciso tratar a startup como ela tem que ser tratada. Com o carinho e a atenção que ela precisa para poder sobreviver e criar valor para a sociedade”, concluiu o consultor.
Por fim, na visão dos debatedores, o painel consolidou a ideia de que o Brasil possui uma vocação natural para liderar a transição energética global, com números muito superiores à média internacional. Isso é mais evidente no uso de energia primária renovável, graças ao vasto potencial em hidroeletricidade, biomassa e eólica. Por isso, os especialistas defenderam que o ecossistema brasileiro deve abandonar o foco puramente local e adotar uma mentalidade global para exportar soluções de descarbonização para todo o planeta.
Sobre a Inova Unicamp
A Agência de Inovação da Universidade Estadual de Campinas (Inova Unicamp) é o Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) da Unicamp e atende a todos os campi. A Inova Unicamp foi criada em 2003 com o objetivo de identificar oportunidades e promover atividades que estimulam a inovação e o empreendedorismo, ampliando o impacto do ensino, da pesquisa e da extensão em favor do desenvolvimento socioeconômico sustentado.
A Agência apoia a comunidade na proteção da propriedade intelectual da Unicamp, na transferência de tecnologia, na consolidação de acordos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) entre a Unicamp e o setor empresarial. Ela também é responsável pela gestão do Parque Científico e Tecnológico da Unicamp e da sua Incubadora de Empresas de Base Tecnológica (Incamp), além de fomentar a comunicação e a cultura de empreendedorismo e inovação com programas de relacionamento institucional e capacitações.
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