A Lavoura | Microesferas com jabuticaba e pequi ampliam uso de probióticos em alimentos vegetais

Uma pessoa, vestindo jaleco branco e luvas de látex azul vibrante, segura um pequeno copo de Becker (ou um recipiente de plástico transparente) com a mão esquerda. Com a mão direita, utiliza uma haste metálica fina para mexer ou coletar algo dentro do copo, que contém uma pequena quantidade de uma substância clara ou levemente esbranquiçada. Fim da descrição.
Tecnologia desenvolvida na Unicamp aumenta a resistência desses micro-organismos e abre caminho para aplicação em sucos, geleias e bebidas à base de frutas 

Probióticos são velhos aliados da saúde intestinal, do sistema imunológico e da digestão. O desafio, porém, sempre foi levá-los além dos produtos lácteos. Sensíveis a variações de acidez, temperatura e concentração de açúcar, esses micro-organismos costumam perder viabilidade quando incorporados a alimentos vegetais ou à base de frutas.

Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp promete mudar esse cenário.

O grupo criou microesferas capazes de encapsular probióticos e protegê-los em condições consideradas hostis, ampliando de forma significativa as possibilidades de aplicação industrial desses ingredientes funcionais.

🔎 LEIA MAIS SOBRE A TECNOLOGIA: MICROESFERAS COM JABUTICABA E PEQUI AMPLIAM USO DE PROBIÓTICOS EM ALIMENTOS VEGETAIS

A inovação está disponível para licenciamento e corresponde a um Certificado de Adição (CA) de uma patente anterior, também originada na FEA-Unicamp.

As microesferas funcionam como verdadeiros “escudos” microscópicos.

Elas formam camadas de proteção ao redor dos micro-organismos, permitindo que permaneçam vivos por mais tempo mesmo em ambientes com alta acidez ou elevado teor de açúcar. A ideia surgiu a partir de uma primeira formulação que já mostrava resultados promissores.

“Na primeira versão, desenvolvemos cápsulas com alginato de cálcio – um polímero natural extraído de algas – e casca de jabuticaba em pó. O uso dessa fruta, além de conferir cor natural, aumentou a estabilidade dos probióticos, permitindo que sobrevivessem em alimentos mais ácidos, como uma geleia”, explica o professor Juliano Lemos Bicas, docente da FEA-Unicamp e um dos inventores da tecnologia.

Camadas extras de proteção

A nova etapa da pesquisa aprimorou esse conceito ao incorporar óleo de pequi à matriz formada por alginato de cálcio e casca de jabuticaba. A combinação de diferentes métodos de encapsulação resultou em emulsões duplas, criando camadas adicionais de proteção aos micro-organismos.

Com isso, os probióticos passaram a resistir não apenas à acidez, mas também à pressão osmótica e a tratamentos térmicos rápidos — condições comuns em processos industriais de alimentos.

“Habitualmente aplicados em produtos lácteos, por conta do pH pouco ácido, os probióticos foram testados em ambientes extremos — com alta acidez e concentração de açúcar — e permaneceram viáveis”, detalha Bicas.

Os resultados indicam um avanço importante para a indústria de alimentos funcionais.

“Esses dados mostram que a tecnologia pode ser aplicada em sucos, polpas, geleias e bebidas vegetais — alimentos nos quais, até então, os probióticos não sobreviviam por muito tempo”, ressalta o docente.

Biodiversidade brasileira em destaque

Além do ganho tecnológico, a pesquisa chama atenção pelo uso estratégico de ingredientes nativos do Brasil. Desenvolvida em parceria com os pesquisadores Marina Felix Cedran Fábio Júnior Rodrigues, ambos doutores em Ciência de Alimentos pela FEA-Unicamp, a tecnologia prioriza o aproveitamento sustentável de subprodutos da agroindústria.

“A combinação de jabuticaba e pequi não só apresenta melhor desempenho como também valoriza a biodiversidade brasileira”, destaca Bicas.

Ricas em compostos bioativos, a casca de jabuticaba e o óleo de pequi foram incorporados não apenas como elementos estruturais das microesferas, mas também como agentes de proteção e reforço nutricional. Segundo o pesquisador, a abordagem aponta para um uso mais nobre de resíduos agroindustriais.

“Os resultados indicam que subprodutos e resíduos agroindustriais, por exemplo, que muitas vezes vão para compostagem ou alimentação animal, podem ter um uso mais nobre, trazendo benefícios reais à saúde humana”, afirma.

Próximos passos

O grupo agora trabalha para ampliar a escala da produção e validar a viabilidade industrial da tecnologia. Testes em escala piloto já foram realizados com apoio de parceiros industriais, utilizando uma tecnologia análoga — ainda que não idêntica à atual —, o que fornece subsídios importantes para avançar nos níveis de maturidade tecnológica.

A patente foi depositada com o apoio da Agência de Inovação Inova Unicamp, responsável por conectar a pesquisa acadêmica ao setor produtivo.

Para Bicas, esse suporte é decisivo para que a inovação chegue ao mercado. “A Inova tem uma estrutura muito organizada, que nos orienta desde a proteção intelectual até a interface com empresas. É o que garante que nossas pesquisas cheguem ao mercado”, avalia.

Além do potencial econômico, a tecnologia contribui diretamente para o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3 – Saúde e Bem-Estar, ao ampliar o acesso a alimentos funcionais e incentivar o aproveitamento sustentável de resíduos vegetais. Um exemplo de como ciência, inovação e biodiversidade podem caminhar juntas rumo a uma alimentação mais saudável e inclusiva.

Matéria originalmente publicada no portal A Lavoura

Política de uso de conteúdo

A reprodução parcial ou total de reportagens, fotografias e imagens é livre, desde que não haja alteração do sentido original do conteúdo e mediante a citação da Agência de Inovação Inova Unicamp, assim como o(s) nome(s) do(s) autore(s) e do(s) fotógrafo(s), quando citado(s). Ex.: “Nome do fotógrafo/repórter - Inova Unicamp”. O mesmo deverá ocorrer no caso de reprodução parcial ou total de arquivos em vídeo ou áudio produzidos pela Inova Unicamp.