G1 | Unicamp desenvolve gel à base de ‘chica’ capaz de cicatrizar feridas duas vezes mais rápido que laser

Na imagem, há uma mulher sentada próximo ao chão, segurando uma planta. Ela veste um jaleco branco e sorri para a imagem. Fim da descrição.
Remédio fitoterápico foi criado a partir de folha brasileira e está sendo testado no Hospital de Clínicas da Unicamp em pacientes oncológicos com mucosite oral.

Uma folha avermelhada, popularmente conhecida como “chica” ou “crajiru”, é a protagonista de um tratamento — em fase de testes — contra inflamações dolorosas na boca de pacientes com câncer no Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp.

O nome científico da planta é Fridericia chica, uma espécie nativa da Amazônia e Mata Atlântica, mas que pode ser encontrada em todo o Brasil. Ela tem “propriedades antioxidantes maravilhosas”, que permitem cicatrizar feridas de forma muito rápida, segundo a pesquisadora Mary Ann Foglio, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp.

“O que a gente observou? Que esse produto é capaz de fechar e cicatrizar essas feridas em um tempo mais rápido. Ele tem uma ação estatisticamente duas vezes mais rápida do que o laser utilizado”, explica a pesquisadora.

Câncer e mucosite oral

Em fase de testes clínicos, o gel vem sendo usado em pacientes oncológicos porque os tratamentos de quimioterapia ou radioterapia podem gerar a mucosite oral – grandes feridas na cavidade interna da boca.

A lesão aumenta o risco de infecções locais ou que podem se espalhar pelo corpo, levando à diminuição da qualidade de vida dos pacientes, prolongando a hospitalização e até levando à morte.

Os testes começaram há sete anos e, em 2024, foi possível avaliar as estatísticas. Eles começaram de forma randômica, ou seja, alguns pacientes recebiam tratamento convencional com laser e outros recebiam o gel cicatrizante à base de “chica”. E os resultados foram surpreendentes, segundo a pesquisadora.

No geral, a ação tem sido ao menos duas vezes mais rápida do que o tratamento convencional feito com laser, que chega a durar 15 dias. E há casos em que pacientes conseguiram ter as feridas curadas em apenas dois dias.

Trabalho de duas décadas

Na imagem, há folhas de crajiru coletadas para preparo do gel cicatrizante, elas são marrons e amarelas e estão dentro de uma sacola de papelão. Fim da descrição.

Folhas de crajiru coletadas para preparo do gel cicatrizante — Foto: Estevão Mamédio/Para chegar ao gel cicatrizante, foram mais de 20 anos de estudo, que combinaram pesquisas químicas, agronômicas, farmacológicas e até relatos de populações locais.

As folhas foram coletadas de todos os cantos do Brasil, plantadas sob as mesmas condições e seu comportamento foi estudado mês a mês.

“Eles já falavam que era interessante para cuidar de infecções, como também para cicatrização”, conta Mary Ann a respeito dos relatos populares.

A partir daí, o grupo encontrou, dentro de 39 amostras, aquela que produzia maior teor de antocianinas — é este elemento que dá à planta a cor vermelha e, também, tem a propriedade antioxidante e anti-inflamatória.

A partir dela, passaram a desenvolver uma fórmula para criar o remédio fitoterápico. A etapa veio com um desafio: apesar do efeito cicatrizante, o produto também degrada muito rápido. A busca passou a ser desenvolver um produto que aguentasse a temperatura ambiente.

“Por que isso? Porque se você for pensar economicamente, todos os produtos que precisam de geladeira aumentam muito o custo. E aí não é interessante. E o nosso grande interesse é poder oferecer isso inclusive para o SUS”, conta a pesquisadora.

A saída que encontraram (até o momento) foi oferecer o remédio em forma de gel mucoadesivo. Ele é disponibilizado em pequenos sachês que, depois de aberto, aguentam pouco tempo, mas o suficiente para agir nas feridas.

Alívio da dor

Na imagem, há uma divisória separando o processo de preparação do gel cicatrizante. No lado esquerdo há uma substância de coloração avermelhada dentro de um recipiente transparente, sobre um papel branco, enquanto no lado direito há um frasco grande de vidro com liquido vermelho apoiado sobre um suporte. Fim da descrição.

Preparação do gel cicatrizante a partir de folha de crajiru — Foto: Estevão Mamédio/g1

Além do efeito cicatrizante, o gel também alivia a dor.

“Ele tem um efeito anestésico, é muito agradável porque a dor e aquela ardência passam também”, relata Foglio.

Os pesquisadores também afirmam que ele tem outro “benefício”: o gosto de chá preto.

Segundo a pesquisadora, as propriedades antioxidantes da planta podem ser usadas para diversos tipos de tratamentos cicatrizantes. A escolha pelos pacientes oncológicos se deu por uma possibilidade de parceria com a Unicamp e pela gravidade da lesão na qualidade de vida dos pacientes.

Desafio da indústria

Segundo Mary Ann, um dos maiores desafios é escalar a produção do gel para atender maiores demandas e, um dia, conseguir atender ao SUS. É por isso que a faculdade tem buscado parcerias com indústrias.

“Aqui no laboratório, a gente consegue produzir extrato a partir de 5 kg de planta. Então, agora, o grande desafio com essa empresa é aumentar a escala para bateladas de 50 kg de planta”.

E, em paralelo, pesquisadores também estão prospectando quem possa produzir a planta em maior escala.

Chegar ao SUS: um sonho

Duas mãos seguram e apresentam uma planta para o fotógrafo. Há uma grade verde e pedras ao fundo. Fim da descrição.

Pesquisadora mostra pé de crajiru plantado ao redor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp — Foto: Estevão Mamédio/g1

De origem argentina, Mary Ann Foglio morou em diferentes lugares até que encontrou no Brasil um campo fértil para realizar suas pesquisas.

A professora estuda a planta há mais de vinte dois anos. E tem a certeza de que seguirá estudando por todo o tempo que puder, até conseguir oferecer o produto fitoterápico ao SUS.

“Ter visto as pessoas que passam pelo tratamento de câncer, o sofrimento que eles passam, pessoas necessitadas que estão no SUS… O meu desejo é poder oferecer isso, devolver tudo o que o Brasil me deu. O Brasil me deu educação, pagou minha faculdade, me formou na pós-graduação. Poder devolver ao país minha gratidão, oferecendo um produto que, de fato, traga bem-estar e qualidade de vida para essas pessoas que estão nesse momento tão frágil da vida”, comenta emocionada a professora.

Matéria originalmente publicada no site do G1.

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